Nevoeiro #71
Em uma banheira com gente esquisita; o fim da era da leitura; ficar à margem
1.
É um dia frio e nublado e eu decido ir na banheira comunitária da minha cidade de mil habitantes. Uma década e meia atrás, no tempo em que eu morava em Porto Alegre e escrevia colunas pro jornal – textos idealistas muito preocupados com o espaço urbano e o poder das grandes construtoras –, publiquei uma crítica meio engraçadinha sobre a infraestrutura de prédios novos chamada “Quem precisa de um ofurô?”. Agora rio toda vez que penso: EU preciso de um ofurô. Com uma frequência assustadora, meu eu de quarenta e três anos precisa muito de um ofurô. É frio aqui. E poucas coisas podem ser tão deliciosas quanto entrar na água quentinha de uma banheira ao ar livre.
Nesse dia vou na banheira com meu kindle, crente de que estarei sozinha. A banheira é californiamente “clothing optional”, o que quer dizer: dá pra ir pelada, dá pra ir com roupa de banho. Vou de biquíni. Tem mais gente lá – pelados. Há um entra e sai primeiro, mas depois de uns minutos os banhistas de água escaldante – 39 graus segundo meu relógio – se consolidam. O pelado remanescente é um menino de vinte e poucos anos que vendeu tudo que tinha e está viajando de carro pela Califórnia em busca do sonho de virar compositor de música folk. Os de roupa de banho são dois caras e uma garota igualmente jovens que trabalham num circo. Ela é da terceira geração de uma família de mágicos. Despertou para a profissão, conta ela, no encontro de 100 anos dedicado ao famoso truque de ilusionismo de serrar uma mulher ao meio.
2.
A ilusionista Dorothy Dietrich foi a primeira mulher a serrar um homem ao meio.
3.
Quando na minha cabeça antecipo contar a cena da banheira para vocês, a primeira coisa que me ocorre é que algumas pessoas devem acreditar que eu invento essas coisas, porque não parece verossímil que eu cruze com tantas personagens extravagantes. A segunda é que o lugar onde eu escolhi morar é um ímã de gente contracultural e esquisita, e não vou estar mentindo se eu disser que esse é um dos motivos de eu estar aqui; essas histórias alimentam minha escrita e, em última análise, minha vida. A terceira coisa que me ocorre é que, se alguém olhasse essa banheira de longe e recebesse informações oniscientes sobre quem são as cinco pessoas imersas nesse caldo clorado, a mulher lendo seu kindle sem falar com ninguém não estaria exatamente à parte; ela é tão esquisita quanto os outros quatro.
4.
Ela é do Brasil e se mudou pra um lugar em outro país, com muito mais árvores do que gente. Ela é escritora (quem lê ficção hoje em dia?). Ela cria umas personagens meio estranhas em seus livros (tipo o quê?). Tipo uma mulher que empalha animais. Escritora. Taxidermista. Duas profissões um tanto antiquadas.
4.
O seguinte dado se refere aos Estados Unidos e está na matéria de capa da The Atlantic de agosto, The age of reading is over: apenas 20% dos adultos foram responsáveis por mais de 80% de todos os livros lidos no ano passado. Sobre o hábito da leitura, Leah Price, historiadora da Universidade Rutgers, comenta: “está se tornando algo de nicho, como colecionar selos ou cultivar orquídeas”.
5.
Leio essa matéria sentada em uma mesa de piquenique, bebericando um café pra viagem. É uma revista física que eu tenho nas mãos. Sublinho trechos com uma caneta vermelha. Uma pessoa esquisita. A matéria é, evidentemente, desoladora, e não há como dar conta aqui de todos os dados que ela traz, muito menos passar pelo fluxo completo de argumentação da jovem jornalista Rose Horowitch. Sim, as pessoas estão perdendo a capacidade de concentração, ficando mais burras, lendo trechos de livros na universidade em vez de livros inteiros, e alguém tem que ser muito determinado para conseguir ler num mundo assim (a maioria não é).
6.
Diz Horowitch:
Porque escrever uma frase leva mais tempo do que dizê-la, a escrita força o autor a desacelerar e refletir. A linguagem escrita tende a empregar estruturas frasais e vocabulário mais complexos do que a linguagem falada. E, ao contrário da fala, ela não se dissipa no ar; os leitores podem retornar ao texto e extrair dele novos significados e entendimentos (…). ’Mais do que qualquer outra invenção, a escrita transformou a consciência humana’, escreveu Walter J. Ong, historiador e padre jesuíta, em seu livro de 1982, Orality and Literacy. Ele argumentou que a cultura escrita criou as condições para a concentração interior, o foco prolongado e a dedução lógica. A escrita tornou possível um novo tipo de pensamento racional, linear e analítico.
7.
Se o mundo está perdendo isso, eu não quero perder isso. Há uma idade em que você infelizmente parece que para de lutar contra os gigantes. Eu digo infelizmente porque, de um certo modo, essa é a admissão de que os gigantes venceram. O que eu fiz em 2018 foi literalmente fugir pras montanhas. Eu vi o que estava se aproximando e decidi ficar à margem. Não totalmente à margem, mas um pouco. O suficiente. Eu tenho uma profissão que está se tornando cada vez mais extravagante. A vida que eu tento viver todos os dias, além disso, não é a vida que a maioria das pessoas está vivendo em 2026. Estou tentando não atrofiar o meu cérebro com uma sucessão de vídeos de 47 segundos (segundos pesquisas, a capacidade média de atenção de uma pessoa era dois minutos e meio em 2004, 75 segundos em 2012, e passou para 47 segundos agora). Entro no Instagram a cada três dias apenas para checar as DMs e saio correndo (o que significa: deleto o aplicativo). Cozinho quase todas as minhas refeições porque aqui não tem delivery e “cozinhar nos devolve um pouco da atenção e nos exige intenção”, como disse Lena Mattar em sua deliciosa newsletter. Vou para rua com uma revista de papel e sublinho trechos apavorantes. Em um deles, está escrito: “Há um medo entre historiadores, sussurrado entre painéis e conferências, de que eles serão a última geração a sistematicamente examinar o passado.”
Essa newsletter é feita em um ritmo lento e antiquado. Com cuidado. Assinantes pagos tem acesso ao Clube Nevoeiro, encontros mensais que discutem romances e contos, alternadamente. Ler um livro é uma ato de resistência. Esses encontros, tanto quanto meus fins de tarde na banheira comunitária, estão na lista dos pontos altos do meu cotidiano.
Colaboradores também recebem o Caderno Amarelo, edições focada em escrita de ficção, e têm acesso a todo o arquivo das edições passadas.
Ainda esse ano, leremos os seguintes livros/contos (a lista do ano que vem já está sendo pensada!)
13 DE AGOSTO
O americano tranquilo, Graham Greene
SETEMBRO
“O recado do morro”, conto de Guimarães Rosa, publicado originalmente no livro Corpo de baile
OUTUBRO
Por acaso, Ali Smith
NOVEMBRO
“Os mortos”, conto de James Joyce, que está no livro Dublinenses.
DEZEMBRO
Kairos, Jenny Erpenbeck




Carol, que coincidência: eu vi essa matéria hoje e pensei o dia inteiro sobre ela. Eu achei meio radical e auto-centrado (tudo bem, é uma tendência mundial, mas será que essa taxa seria assim tão desoladora no MUNDO todo?). Não sei, acho que quando nos prestamos a decretar a morte das coisas é porque elas não estão de fato morrendo. Morte de verdade não deixa testemunhas. Sempre há espaço para lutar, ressuscitar, reformar? Estou divagando, mas realmente pensei muito nisso hoje. Tenho pensado muito em todas essas coisas (meu texto de hoje conversa com o seu, mas na direção oposta). Acho que o mundo está sendo radicalmente transformado e agora precisaremos lutar para defender a ficção, como ela precisa ser. Se a gente desiste, já era. Eu francamente agradeço por você não ter desistido.
Li um trecho da sua newsletter pra minha mãe no café da manhã. Ela me contou que esses dias descobriu uma empresa que oferece o serviço de gastar os livros da sua biblioteca, deixá-los com marcas de leitura, para que as pessoas pensem que você os leu. Também quero fugir para as montanhas, rs.