Nevoeiro #70
A música compartilhada; os sete pilares da amizade; quebrar o diamante
1.
Faz algumas semanas que não vejo meu amigo V. Estive em Porto Alegre passando frio e comendo pinhão. Vi um jato de esgoto cloacal subir pelo ralo do banheiro no último dia e, depois de fugir das águas fétidas e de alguns seres invertebrados zonzos, me dei conta que já vivi todo o cinema brasileiro naquele apartamento: O som ao redor, O cheiro do ralo, Motel Destino, e talvez, muito em breve, tudo venha acabar em Aquarius.
Mas agora estou de volta à Califórnia e marquei de encontrar V. em sua casa para irmos à pé ao centrinho da cidade de 6.983 habitantes; uma compositora folk vai cantar num café que só aceita dinheiro, e um grupo de meninos imberbes de terno e bolo ties transformará em blue grass alguns clássicos do punk. Como já disse o narrador de um dos meus romances: é um lugar pequeno, as pessoas se divertem com o que tem.
2.
V. me dá um abraço, me faz entrar – eu tiro as botas – e rapidamente diz que precisa me mostrar uma música. Há uma urgência nisso. Eu me sento no sofá. Ele coloca o vinil. Não mostra a capa. Ouvimos a canção do início ao fim sem dizer uma única palavra. Sabemos muito bem que aquele é o momento mais importante do dia.
3.
Às vezes não é fácil entender se o que mudou é o fato de você não ter mais vinte anos ou se foi o mundo em si que mudou. O que é inegável é que você sente um desconforto; o mundo já não valoriza o que você valorizava. A música, por exemplo, explodiu em mil direções. O problema não é o fácil acesso, que tem a vantagem de nos fazer descobrir tesouros, mas o fato de que cada um de nós está a consumindo em seu planetinha algorítmico, na solidão de seus fones de ouvido. Você nem fica sabendo o que seus amigos andam escutando – se é que eles mesmos sabem porque, bom, basta apertar um botão e pronto. Há uma perda enorme nisso. Dentre todas as artes, talvez a música seja a que estabelece as conexões humanas mais fortes. Como se disséssemos: se esses acordes e essa voz te emocionam como me emocionam, então só nos resta sermos amigos.
4.
Aqui é o momento em que eu digo que até a ciência comprova isso. No livro Friends, o antropólogo e psicólogo evolucionista Robin Dunbar nos conta de um estudo que identificou os sete pilares da amizade. Não é preciso marcar um x em todos, e nenhum é mais importante do que o outro, mas é claro que a tendência é que, quanto mais pilares sustentarem sua relação, mais forte será a conexão com aquela pessoa. E portanto mais tempo você estará disposta a investir naquela amizade. Os sete pilares são: falar a mesma língua (ou dialeto); ter crescido no mesmo lugar; ter tido o mesmo tipo de educação ou experiências profissionais; ter os mesmos hobbies e interesses; ter a mesma visão de mundo (um amálgama de visão moral, política e religiosa); ter o mesmo senso de humor.
Você tem razão, são seis até aqui. Isso porque o sétimo só acabou entrando entrando em uma categoria única em um estudo posterior. E esse sétimo vem a ser justamente: ter o mesmo gosto musical.
5.
Ainda sobre os pilares, ecreve Dunbar:
(…) o processo de fazer um novo amigo segue um padrão bastante definido. Ao conhecer alguém, você dedica muito tempo a essa pessoa (na prática, lançando-a diretamente para um dos seus círculos mais íntimos) para que assim possa avaliar como ela se encaixa nos Sete Pilares. Isso leva tempo, mas, uma vez que você entende qual é a posição daquela pessoa, então reduz o tempo dedicado a ela a um nível compatível com a quantidade de pilares que vocês têm em comum. Como resultado, ela desliza silenciosamente pelas camadas até se estabilizar naquela que corresponde a esse número. Em outras palavras, as amizades nascem, não são fabricadas.
6.
Claramente, como imigrante, estou em franca desvantagem para fazer novas amizades, já que os pilares um e dois me são quase inacessíveis, a não ser que eu venha a conhecer uma outra pessoa vinda do Brasil, mas então eu diria que a chance disso acontecer nesse cantinho remoto da Califórnia é mínima, e ainda menor é a chance de termos outras coisas em comum além de nosso local de origem. E aqui talvez eu deva discordar do Dunbar quando ele diz que não há hierarquia nos pilares. Talvez haja. Talvez cada um de nós crie a sua.
5.
Já dizia Leonard Cohen: we are ugly, but we have the music.
6.
A agulha do meu toca-discos acaba de estragar. De Floripa, meu amigo D. sugere que a gente faça uma videochamada para ele me ajudar a instalar a nova. Ele diz que vou ter que ouvir uns trinta ou quarenta discos até a agulha chegar ao seu potencial. É preciso “quebrar o diamante”.
7.
Os dias são cheios de detalhezinhos que se acumulam e alguns vão brilhar mais do que os outros sem que você saiba exatamente por quê, e é até melhor assim. Não pensar demais. Eu fico me lembrando de uma coisa boba que me tocou na minha rápida passagem por Porto Alegre agora em junho, quando as noites fria pareciam meio máquina do tempo para a minha infância ou para um 4 de junho de 1988 em uma certa esquina, o dia em que José Antônio Daudt é assassinado ao colocar a chave no portão do prédio, uma noite sobre a qual eu pessoalmente não lembro de nada, mas que passei um bom tempo recriando nas páginas do Diorama. O detalhezinho dessa rápida passagem por Porto Alegre tem a ver com música. Ou melhor, tem a ver com dois amigos que a música me deu. Dois amigos que podem me recomendar agulhas. E talvez não seja uma questão de ter um gosto musical parecido. Talvez seja uma questão de ser reverente à música. Até de às vezes rir das escolhas do outro.
Os dois amigos – essa amizade sempre funcionou melhor como um trio – estão atrasados para me encontrar no apartamento, o apartamento que ainda não viu a súbita ascensão do esgoto cloacal. Então J. me manda um vídeo: é D. saindo de um prédio, indo na direção do carro de J. Depois D. me manda um vídeo: é J. num posto de gasolina, a bomba enchendo o tanque.
Não sei por que, e nem ouso saber, mas aquilo me dá um calorzinho no coração no momento em que eu mais precisava.
Eles chegam. Naquela noite, estranhamente, não ouvimos música.
8.
A música que V. colocou para tocar foi All we ever wanted was everything, do Bauhaus.
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15 DE JULHO
“O ponto do marido”, conto de Carmen Maria Machado, que será enviado por e-mail.
13 DE AGOSTO
O americano tranquilo, Graham Greene
SETEMBRO
“O recado do morro”, conto de Guimarães Rosa, publicado originalmente no livro Corpo de baile
OUTUBRO
Por acaso, Ali Smith
NOVEMBRO
“Os mortos”, conto de James Joyce, que está no livro Dublinenses.
DEZEMBRO
Kairos, Jenny Erpenbeck




sendo imigrante, posso afirmar que o que a língua separa a música vai lá e aproxima. as relações mais próximas que tenho criado vivendo em outro país começaram nessa troca. inclusive, acho que é meu esporte favorito mostrar música brasileira pros gringos. aí é garantia pra cativar as pessoas certas
Built to Spill na agulha da foto?? (Madger detected)