Nevoeiro #66
o que é a dopamina; as moléculas do aqui e agora; meu café
1.
Eu vi as mentes mais brilhantes da minha geração destruídas pelo celular, famintas por mais uma dose de dopamina.
2.
Mais de uma vez, li pessoas comparando as redes sociais com o cigarro, no sentido de contemplarem e torcerem pela previsão de que um dia os malefícios ficarão tão óbvios que a cultura terá que mudar. Adeus, Marlboro Man. Adeus, influencer do Tiktok. Queria eu ter esse otimismo. O dano do cigarro é mais gráfico (um pulmão preto e rígido em constante processo inflamatório) e também mais estatístico (oito milhões de mortes ao ano). O cigarro também era um fenômeno cultural, o charminho da tragada da estrela de cinema, o rockeiro sentado na sarjeta, o filósofo contemplando as estrelas, mas nada disso se compara ao papel dos celulares em nossas vidas. Nada disso se compara à constatação de que somos um experimento vivo em matéria de reprogramação social e cerebral, e que a maioria das pessoas não está nem tentando lutar contra isso.
3.
Essa semana tenho lido bastante sobre dopamina. Todo mundo já ouviu falar a respeito desse neurotransmissor, essencial, entre outras coisas, para para nos manter motivados a treinar para uma maratona, escrever um romance, juntar dinheiro para comprar um carro, etc. A dopamina também atua em coisas mais comesinhas – agora eu queria demais tomar um chá e imagino meu cérebro se inundando de dopamina e acreditando que vai me fazer levantar para preparar um delicioso rooibos, mas o problema é que estou no escritório novo e ainda não tenho nenhuma forma de esquentar água aqui. A dopamina me fará comprar uma chaleira elétrica.
A dopamina, no entanto, não é exatamente a molécula do prazer. É a molécula da busca. É a molécula da antecipação. No contexto das redes sociais, significa aquela expectativa por likes depois de publicar sua selfie de academia ou aquele scrolling em busca de um story incrível que provavelmente nunca aparecerá ou, caso apareça, nunca causará o prazer que você imaginou.
No contexto mundo concreto, a dopamina é a empolgação que você sente em descobrir um novo café no bairro, e é também o prazer de, uma vez sentado lá dentro, constatar que o cappuccino e os doces são deliciosos.
A dopamina também é a certeza de que nenhuma subsequente ida ao café será tão prazerosa quanto aquela primeira.
4.
Não estou usando o exemplo do café à toa. Tenho dois bons motivos para isso. No livro Dopamina – a molécula do desejo (o título original é The molecule of more), os autores Lieberman e Long dão esse exemplo, indo além na suposição e imaginando que o sujeito que se encantou com o café decide então ir àquele lugar todas as manhãs, e no entanto, a partir de um certo ponto, o “arrebatador mistério do desconhecido se transforma na entediante familaridade do dia-a-dia”. Meu segundo bom motivo para falar disso é que eu tenho o meu café aqui em Mendocino. A cidadezinha, que fique claro, tem apenas dois cafés. E eu não pretendo de mudar daqui.
5.
Curioso que subitamente fico preocupada com o fato de o café – chama-se Waiting Room, um nome aliás bem dopamínico – parar de me oferecer minhas doses desse neurotransmissor. Digo isso porque ano passado fiz um vídeo em que defendia a redução de escolhas como um estilo de vida menos ansioso e mais satisfatório. No vídeo, cito os dois cafés como exemplo. Há base científica para eu dizer o que disse e para eu realmente acreditar nisso; só para continuar no universo dos acadêmicos da dopamina, Anna Lembke, autora de Nação Dopamina, diz o seguinte sobre a profusão de prazeres e a facilidade em alcançá-los:
De certo modo, a dopamina é o nosso neurotransmissor de sobrevivência. Nós evoluímos em um mundo de escassez e perigo constante, onde, essencialmente, buscávamos o prazer e evitávamos a dor. A dopamina sinaliza: isso é algo que você precisa para sobreviver, vá buscar agora. Comida, roupas, abrigo, a procura por um parceiro. O problema é que mudamos a face do nosso próprio planeta. (…) Nossos cérebros estão lutando para se adaptar à enorme discrepância entre nossa estrutura ancestral e o ecossistema moderno.
6.
No livro The paradox of choice, o psicólogo Barry Schwartz também explora as desvantagens de um mundo com muitas possibilidade de escolha: “À medida que o número de opções aumenta, os aspectos negativos disso se intensificam até ficarmos sobrecarregados. Nesse ponto, escolhas deixam de ser libertadores e passam a ser debilitantes. Pode-se até dizer que elas nos tiranizam.” Schwartz, aliás, escreveu isso em um mundo pré smartphone (o livro é de 2004). Enfim, advogo pela ideia da redução de escolhas, mas continuo preocupada com o fato de meu cappuccino e meu muffin não terem o mesmo sabor que tinham das primeiras vezes. E aí descubro as tais “moléculas do aqui e agora”.
7.
Em contraste com a dopamina, que atua essencialmente em desejos futuros, seja o chocolate que você vai comer logo mais, o sofá que pretende comprar amanhã, a pessoa com quem vai sair no fim de semana, essas outras substâncias químicas entram em cena quando você está curtindo o momento presente. É praticamente a composição química do mindfulness. Estamos falando de serotonina, oxitocina, endorfinas e um conjunto de químicos chamados endocanabinoides (a maconha produzida pelo cérebro). As moléculas do aqui e agora, em resumo, são as que fazem a gente curtir as coisas que temos, e não ficar constantemente desejando o que não está em nosso alcance.
8.
O Waiting Room já faz parte do meu cotidiano. Mas as coisas do dia-a-dia também podem – e devem – ser reverenciadas. O segredo, me parece, é não tratá-las como algo que está posto, mas sempre conservar algum encantamento com o que está se desenrolando no agora. Também pode ser bom causar algum atrito, no sentido de resistência – o oposto do que nos oferece o celular, onde os químicos neuronais disparam fácil porque tudo está a um clique de distância, pessoas, notícias, compras, pornografia, lugares. No caso do meu café: não quero ir lá todos os dias, no automático. Quero que continue uma coisa especial. Quero me oferecer isso de recompensa quando tiver terminado um trabalho, por exemplo. Aliás, estou indo para lá.
Escrever esse negócio dá trabalho, como você pode imaginar :) Se você gosta da Nevoeiro, considere se tornar um assinante pago. Colaboradores têm acesso aos encontros mensais do Clube Nevoeiro, e também recebem as edições do Caderno Amarelo, focado em escrita. Os encontros acontecem via Zoom às 19h, e começam com uma introdução minha sobre a obra antes de partirmos para a discussão.
FEVEREIRO
Dia 24/2, O quarto de Giovanni, James Baldwin
MARÇO
Dia 19/3, “A fugitiva”, conto de Alice Munro que está no livro A fugitiva.
ABRIL
Sonho de trem, Denis Johnson
MAIO
“Sargento Garcia”, conto de Caio Fernando Abreu, que está no livro Morangos mofados
JUNHO
A autobiografia do algodão, Cristina Rivera Garza
JULHO
“O ponto do marido”, conto de Carmen Maria Machado, que está no livro O corpo dela e outras farras
AGOSTO
O americano tranquilo, Graham Greene
SETEMBRO
“O recado do morro”, conto de Guimarães Rosa, publicado originalmente no livro Corpo de baile
OUTUBRO
Por acaso, Ali Smith
NOVEMBRO
“Os mortos”, conto de James Joyce, que está no livro Dublinenses.
DEZEMBRO
Kairos, Jenny Erpenbeck




a ironia é que eu larguei o livro pra ler a nevoeiro quando chegou a notificação no celular (dopamina do bem?).
Leitores de literatura têm um dilema interessante sobre o tema Dopamina. Quando você decide por um romance a ler, vai passar, sei lá, de 10 a 30 dias com ele. Nesse período, receberá a tentação de ler uns 100 títulos diferentes e viverá a ansiedade de se livrar do romance em curso e decidir pelo próximo da lista.
Outra situação que considero angustiante para mim é visitar livrarias. Ao me deparar com aquela monstruosidade de títulos em prateleiras asfixiantes eu me desanimo - ou me desespero. Entre todas as opções, há um ou dois livros que ainda não li, que não conheço o autor, que seria transformador, mas que provavelmente nunca chegará à minha mão.
Evito livrarias, ainda mais porque, sendo autor, imagino meus próprios livros amarrotados nessas mesmas prateleiras - ou o mais provável: nem presentes. E o leitor que seria transformado ao ler meus livros jamais saberá que eu existo. Sigo, porém, lendo. Sigo, porém, escrevendo. Não lerei tudo o que eu deveria. Não escreverei tudo que eu deveria. Mas estou aqui, após um texto a menos a escrever. Beijinho.