Nevoeiro #69
Levantar peso; o benefício imediato do exercício; vaidade ou empoderamento?
1.
Por nada do mundo eu teria me imaginado no canto de uma sala mal ventilada, encaixando minhas mãos em uma barra hexagonal cheia de ferrugem para então levantá-la, gemendo, com a força dos músculos da cadeia posterior. Eu passei a vida inteira achando que essas criaturas eram feitas de outra substância, que cedo numa encruzilhada da vida elas tinham pegado um lado e eu tinha pegado o outro, o lado da leitora sem tônus muscular que achava que o corpo servia apenas para levar seu cérebro pra passear por aí. Mas as pessoas mais infelizes que eu já conheci foram as que nunca mudaram. Porque isso significa não ter mais curiosidade sobre nada. Eu tenho curiosidade. E eu comecei a sentir uma imensa curiosidade sobre meu próprio corpo.
Mudanças não vêm com dia e hora marcada, mas frequentemente a nossa percepção de que algo está diferente chega em momentos muito precisos. No meu caso, aconteceu numa manhã em Nova York, três semanas atrás, quando subitamente me vi no meio de Manhattan com um domingo inteiro para gastar. Nada mais difícil do que um domingo num lugar estranho. E havia tantas coisas que eu poderia fazer, coisas demais; um cara tinha me dito no dia anterior que eu deveria visitar um apartamento cheio de terra no Soho, 127 toneladas de terra colocados lá por um escultor de land art em 1977, e havia o Central Park, e todos os museus imagináveis, mas então em algum momento me dei conta do que eu queria fazer, do que eu tinha que fazer, e aquilo era claramente não um dever, mas uma espécie de questão vital: eu precisava ir numa academia levantar uns pesos.
2.
A academia mais perto da minha casa fica a exatos 15,9 km de distância, em outra cidade. É um prédio de madeira dividido em muitas salinhas, com duas quadras abandonadas de tênis à direita da entrada. A nova dona achou de bom gosto fazer um trocadilho quando rebatizou o lugar. Chama-se The Bar.
3.
Qualquer pessoa bem informada sabe da importância da musculação. A conta é fácil: a partir dos cinquenta anos, perdemos todos os anos cerca de 1,5% de força muscular e 1% a 2% de massa magra – a tal da sarcopenia. Uma vez, num podcast, ouvi um médico dizer que é muito difícil sermos convencidos a fazer algo cujo benefício está lá na frente. É verdade. Fica quase impossível criar um rotina de exercício aos quarenta se sua única motivação é a vaga imagem de você trinta anos adiante tentando carregar sacolas de supermercado ou se esforçando para levantar de uma poltrona molenga. O benefício precisa – também – vir nas horas seguintes, nos dias, nos meses. E posso dizer que nesse ano, finalmente, entendi isso. Ou melhor, não é que entendi, porque entender todo mundo entende; passei de fato a sentir.
4.
Há um jeito científico de explicar isso: dopamina, endorfina, serotonina e outros hormônios começam a circular pelo seu corpo e causam uma incrível sensação de bem-estar. É o famoso “não gosto de ir na academia, mas gosto de ter ido.” Mas eu prefiro ficar com o comentário vago, incompleto, poético, da jornalista e nadadora Bonnie Tsui: uma conexão entre a felicidade e o movimento.
5.
Não foi fácil criar o hábito de ir na academia. 15,9 km de distância, em uma cidade de sete mil habitantes – mas é importante dizer que o trajeto leva só vinte minutos. Além da logística, era preciso também lidar com a sensação, introjetada há muito tempo, de que se exercitar, de que mexer o corpo, é um ato totalmente privado. Eu me sentia estranha numa sala com outras pessoas, puxando meus elásticos, fazendo meus agachamentos búlgaros. Em resumo, foi difícil me livrar de um auto-julgamento incômodo de que havia algo ridículo naquilo que eu estava fazendo. Mas uma hora passou. E o ponto de virada talvez tenha sido uma fotografia dos meus quadríceps.
6.
Eu notei que minhas pernas estavam mais fortes. No início tentei classificar isso como vaidade, uma coisa que eu não queria sentir. Eu não queria cair no encantamento do espelho como os adolescentes marombas de calça de pijama fazendo bíceps e depois se olhando lascivamente como se quisessem chupar o próprio pau. Mas havia sim um encantamento. Uma surpresa com o próprio corpo – porque me disseram que daqui pra diante era só derrocada e, nossa, estou fazendo agora um afundo cruzado e me olhando e nunca tive essas pernas tão definidas antes.
Depois acho que entendi que tudo é uma questão de discurso. O que eu estava negativamente classificando de vaidade poderia ser chamado de superação, satisfação com a auto-imagem, empoderamento.
7.
Vá lá, também era vaidade. E tudo bem que fosse.
8.
Bonnie Tsui escreveu um livro sobre natação e recentemente lançou um outro em que fala de músculos (On Muscle: The Stuff That Moves Us and Why It Matters). Em uma conversa no podcast 10% Happier, Tsui e o apresentador Dan Harris discutem, entre outras coisas, a percepção que a sociedade tem dos músculos e de que maneira isso sempre foi diferente – e segue sendo – entre os gêneros masculino e feminino. “Especialmente para as mulheres”, resume Harris “pode haver um valor real em sentir orgulho de desenvolver músculos de uma forma visível, porque, na verdade, isso é contracultural e empoderador”.
9.
Quando ouço esse podcast, já escrevi o início desse texto, e é curioso então que Bonnie Tsui conte que, pesquisando para escrever On muscle, ela ouviu tantas histórias e conheceu tantas pessoas que começaram a se exercitar regularmente a partir dos cinquenta, sessenta, setenta anos. E que então, refletindo sobre isso, Bonnie Tsu finalmente diga: “Quando chegamos a uma certa fase da vida adulta, nós nos tornamos inflexíveis [a palavra que ela usa é ossify, ossificamos] Nós ficamos presos a nossos hábitos; gostamos dos nossos ritmos, das pessoas com quem convivemos, das nossas rotinas. E não há nada de errado nisso. Mas acredito que a novidade — e a noção de que a mudança é algo positivo — seja algo que, de tempos em tempos, todos precisam se estimular a buscar.”
Se você gosta da Nevoeiro, considere se tornar um assinante pago. Colaboradores têm acesso aos encontros mensais do Clube Nevoeiro, e também recebem as edições do Caderno Amarelo, focado em escrita. Os encontros acontecem via Zoom às 19h, e começam com uma introdução minha sobre a obra antes de partirmos para a discussão.
30 DE JUNHO
A autobiografia do algodão, Cristina Rivera Garza
15 DE JULHO
“O ponto do marido”, conto de Carmen Maria Machado, que está no livro O corpo dela e outras farras
AGOSTO
O americano tranquilo, Graham Greene
SETEMBRO
“O recado do morro”, conto de Guimarães Rosa, publicado originalmente no livro Corpo de baile
OUTUBRO
Por acaso, Ali Smith
NOVEMBRO
“Os mortos”, conto de James Joyce, que está no livro Dublinenses.
DEZEMBRO
Kairos, Jenny Erpenbeck




Perfeito o texto, Carol, me identifico com tudo, sendo a pessoa que agora planeja onde vai treinar quando viaja e, mais recentemente, onde vai nadar e que antes, como você, achava impossível entender as pessoas que gostam de atividades físicas intensas. É bom desossificar nossas percepções, né?
Poxa, que coxa! hehe
(adorei o texto)