Nevoeiro #65
O primeiro carro de um imigrante; virei pop?; tentando fugir de uma verdade sobre o mundo
1.
Ontem vendi o primeiro carro que comprei aqui na Califórnia para dois refugiados ucranianos. A tia deles faz o cheque. Tem nome de tenista. Estou assistindo tênis demais.
2.
Esse carro custou quatro mil dólares em 2018 e estava me esperando quando eu cheguei de mala e cuia. O esquema foi arranjado por um amigo que mora em Los Angeles, que por sua vez tinha um amigo chamado Caveira em Porto Alegre, e Caveira ia passear um pouco na Califórnia, sentir se dava pra viver aqui, e um dia eu fui em uma agência bancária na Nilo Peçanha e entreguei quatro mil dólares em espécie para esse cara que eu nunca tinha visto na vida. Ainda lembro de matar tempo antes de ele aparecer – eu tinha chegado cedo demais –, caminhando pela avenida e ouvindo uma mesma música repetidas vezes. Queens of the Breakers. Era uma música que abria o horizonte, se expandia, fazia promessas, embora agora, analisando a letra, tudo me pareça meio desapontador e sombrio. Quase nunca dou bola para a letra.
3.
Um Toyota Corolla 2005. Veio com uma pulseirinha de miçangas vermelhas pendurada na alavanca de comando, sei lá que mandinga era aquela. Melissa e eu nunca tivemos coragem de tirá-la de lá.
4.
Quase oito anos se passaram. Quando você está fora do seu país de origem, é estranho como o tempo parece correr diferente. Ou são dois tempos distintos avançando paralelos, ou o cronômetro é zerado e recomeça, sei lá. Fato é que, olhando para a minha carreira, parece que aconteceu uma coisa engraçada que foi passar de “jovem escritora” para “escritora com mais de vinte anos de experiência”. Não sei exatamente quando essa mudança abrupta aconteceu, mas eu com certeza já estava aqui, do lado de fora de onde a mudança abrupta efetivamente aconteceu – a percepção da mudança, melhor dizendo. E com isso aconteceu uma coisa engraçada: eu virei meio pop, sendo ainda outsider.
Desde que anunciei a nova programação do Clube Nevoeiro, a newsletter ganhou inacreditáveis 107 novos assinantes pagos. No primeiro encontro, a sala lotou tanto a ponto de estourar o limite do plano do Zoom (só me dei conta depois, perdão). Mais de cem leitoras e leitoras discutindo um conto da Samanta Schweblin. Tem como não se emocionar com isso?
Algumas semanas depois, batemos 1.600 pessoas inscritas na aula aberta que dei na Seiva para anunciar a nova turma do curso As engrenagens do romance.
5.
Interrupção para publi: assinantes Nevoeiro ganham R$ 100 extra de desconto com o cupom NEVOEIRO + um exemplar do meu primeiro livro, Pó de parede (entrega em todo o Brasil). Desconto válido até 09/02. Inscrições aqui.
6.
Sim, métricas e tudo de bom e de ruim que pode acontecer em uma carreira distrai. Escrever literatura requer tirar tudo isso da cabeça. Pode ser que eu tenha demorado mais a abandonar o projeto de romance que acabei abandonando porque esse projeto era também uma performance, e havia a pressão brutal de continuar fazendo aquilo. Eu acho que resisto a virar uma marca de mim mesma – Gaía Passarelli fez uma ótima edição sobre isso –, mas volta e meia reinstalo o Instagram por demandas externas e quando vejo estou mostrando meu escritório novo e meu lookinho de tenista, mas saibam pelo menos que não há estratégia nisso; as redes sociais tocam certeiras em nossos desejos mais primitivos: o desejo pela fofoca e o desejo por se mostrar. Eu estou feliz com as minhas pernas. Não sei por quanto tempo estarei feliz com as minhas pernas.
7.
O romance novo falará sobre isso – pernas –, mas não vou ser idiota o suficiente dessa vez em discorrer sobre uma coisa ainda em construção.
8.
Em um dos artigos citados pela Gaía – Generation Franchise: Why Writers Are Forced to Become Brands (and Why That’s Bad) –, Jess Row escreve que, enquanto muitos escritores usam a internet para amplificar seu alcance, os autores de autoficção “não costumam passar muito tempo na internet, vendo isso (sabiamente) como competição”. E então Row dá o pulo do gato e aproxima as duas correntes:
Compreender essas duas formas ou gêneros de escrita como variedades da mesma coisa, operando sob o mesmo impulso, ajudou-me a identificar a característica mais marcante da autoficção: o desejo de ser a internet sem a internet. A autoficção preserva as mesmas qualidades das mídias sociais — a atenção para o cotidiano, a efemeridade, o imediatismo, a intimidade, a ambivalência, a inconclusividade —, mas apenas como uma forma do que Bakhtin chamou de monoglossia, uma linguagem na qual apenas uma pessoa fala.
9.
Elena me fala dos sobrinhos fugidos da guerra. Ucranianos em Moscou. Não deu mais para eles. Melissa preenche o verso do registro do veículo com cuidado, se certificando mil vezes que está fazendo tudo certo – e estranhamente, nessa insistência, eu lembro da minha avó. O marido de Elena senta no banco do motorista do Corolla, dá a partida, e a floresta se enche com aquele vapores de gasolina de carro velho. “Vamos ficar olhando até o carro ir embora”, ela me diz.
10.
No dia seguinte, vou ao correio pegar um presente. Um disco. A embalagem deixa óbvio. Da outra vez que recebi um disco, o funcionário disse: “tenho certeza que é uma torradeira”. Dessa vez, sou atendida por outro funcionário, e ele diz: “que disco é? Não precisa me dizer”. Eu digo, porque sei. John Lennon/Plastic Ono Band. A gente começa a conversar sobre os Beatles e a carreira solo dos integrantes. Ele conta de quando assistiu a um show do George Harrison com Ravi Shankar e de como chovia e de como eles improvisaram durante uns 45 minutos uma ode à chuva e foi tudo lindo e inesquecível. As pessoas esperam na fila, alguma coisa se acendeu no cara do correio e eu amo esse lugar. Saio do correio. Na frente da sorveteria, e vejo o Corolla. Não resisto. Eu me aproximo do vidro de um modo inconveniente, tentando disfarçar, olhando pros lados. Procuro a pulseira de miçangas vermelhas. Continua lá.
Se você gosta da Nevoeiro, considere se tornar um assinante pago. Colaboradores têm acesso aos encontros mensais do Clube Nevoeiro, e também recebem as edições do Caderno Amarelo, focado em escrita. Os encontros acontecem via Zoom às 19h, e começam com uma introdução minha sobre a obra antes de partirmos para a discussão.
FEVEREIRO
Dia 24/2, O quarto de Giovanni, James Baldwin
MARÇO
Dia 19/3, “A fugitiva”, conto de Alice Munro que está no livro A fugitiva.
ABRIL
Sonho de trem, Denis Johnson
MAIO
“Sargento Garcia”, conto de Caio Fernando Abreu, que está no livro Morangos mofados
JUNHO
A autobiografia do algodão, Cristina Rivera Garza
JULHO
“O ponto do marido”, conto de Carmen Maria Machado, que está no livro O corpo dela e outras farras
AGOSTO
O americano tranquilo, Graham Greene
SETEMBRO
“O recado do morro”, conto de Guimarães Rosa, publicado originalmente no livro Corpo de baile
OUTUBRO
Por acaso, Ali Smith
NOVEMBRO
“Os mortos”, conto de James Joyce, que está no livro Dublinenses.
DEZEMBRO
Kairos, Jenny Erpenbeck





Nosso amado Corolla que subiu an Eastern Sierra, que nos levou pro Tahoe, pra nossa primeira hiking trip no Syskiyou, pra LA tantas vezes. Com ele, a gente resolveu sair do Yosemite no escuro após uma visita da ursada e chegar num hotel e perguntar “tem vaga?”. Ele sempre firme. Agora segue, ainda com a pulseirinha de miçangas. E como sempre podemos citar a Bechdel, “But she missed the days when everything she owned fit into her Toyota Corolla”. 💛💛
Poxa. Porto Alegre é mesmo um ovo: acho q eu conheço esse caveira tb haha