Nevoeiro #53 – Traduzindo 'A trama das árvores'
O que as árvores fizeram comigo; a necessidade de histórias; um trecho.
1.
Uma sequoia-vermelha é aquela árvore que você vê seccionada em uma cena de Um corpo que cai, Madeleine acariciando os anéis da madeira marcados com grandes acontecimentos – Batalha de Hastings, Assinatura da Carta Magna, Declaração de Independência –, e então dizendo, naquele clima arrepiante, sombreado pelas copas imensas: “Aqui eu nasci, e aqui eu morri. Foi só um instante para você. Você não percebeu.” Uma sequoia-vermelha de pé é algo que você não consegue registrar em uma fotografia em sua real dimensão, como na verdade quase todas as coisas da natureza, que parecem se negar a ser capturadas, porque não é possível mesmo, porque há muita mágica envolvida, porque é preciso estar presente para testemunhar.
2.
Se alguém um dia fosse escrever um livro sobre árvores, a chance de a sequoia-vermelha ser a protagonista seria alta. Ela é o maior ser vivo da Terra – alguns darão esse título para uma floresta de álamos, porque nela uma árvore cresce a partir da outra, são geneticamente idênticas, mas eu sou do time das sequoias. Ela é assustadoramente robusta, resiste ao fogo (jornada do herói) e sua madeira avermelhada ergueu cidades inteiras (tragédia shakesperiana).
Na verdade, alguém um dia escreveu um livro sobre árvores, e procurou manter a democracia do reino vegetal, falando sobre todos os seres que era capaz de falar, mas não tinha como a sequoia-vermelha não se sobressair; suas florestas foram dizimadas nos séculos dezenove e vinte, e uns milhares de humanos decidiram lutar para que as últimas sobreviventes continuassem de pé, aceitando riscos altos, sabotando o equipamento de lenhadores, vivendo em cima de uma árvore por dois anos. Uma guerrilha no meio da floresta. Um drama folhoso que também foi um drama humano. Richard Powers decidiu escrever essa história e essa história se chama The Overstory (A trama das árvores). E eu traduzi essa imensidão e saí viva para contar como foi.
3.
A parte que eu explico por que essa empreitada foi um lance muito pessoal desde o início: eu moro na região das sequoias-vermelhas há quase sete anos. Eu poderia dizer que essas árvores me trouxeram para cá ou que ao menos sinalizaram uma mudança radical, como, sei lá, os sicômoros secos de Twin Peaks sinalizavam o portal para o Black Lodge, mas num tom mais alegre. Poderia dizer, sendo mais cientificamente rigorosa, que inúmeros estudos provam que a exposição à natureza reduz o estresse, a ansiedade, a pressão arterial e oferece até ganhos cognitivos (há um campo de psicologia agora chamado ecopsicologia).
E aí você está aqui, no meio dessa natureza tão ostensivamente incrível, e obviamente você não é a única a perceber as coisas assim: você entra no café da cidade e uma cliente está mostrando para a barista uma foto de uma aranha linda, rosada, que ela viu naquela manhã. Você está na aula de tênis e a professora para um forehand no meio do caminho e ergue a cabeça para ver os patos migrando para o norte.
E era justamente disso que o Richard Powers queria falar no livro, tentando não ser cafona, porque o mundo “normal” entende isso como cafona, e como você faz para desarmar o cinismo e o sarcamo das pessoas? Ele queria falar de tudo e da conexão entre tudo. Mas ele sabia que, para tocar as pessoas, ele precisava de uma boa história humana.
4.
“Você é psicólogo”, diz Mimi ao recruta. “Como convencer as pessoas de que estamos certos?”
O mais novo habitante de Cascádia morde a isca. “Os melhores argumentos do mundo não vão mudar a cabeça de uma pessoa. A única coisa que pode fazer isso é uma boa história.”
5.
Há bastante trama em A trama das árvores, e toma-lhe jornada do herói para quem gosta de jornada do herói, porque são nove, e isso sem contar as árvores. Há um nerd que cria um jogo de computador e ganha milhões, uma jovem que muda de vida depois de quase morrer eletrocutada, uma botânica introvertida que enfrenta o mundo acadêmico e faz descobertas incríveis. Os noves caminham em estradas separadas, mas a vida da maioria deles converge na luta pelas sequoias. Eu lembro exatamente onde eu estava – numa biblioteca – quando terminei de resolver as últimas dúvidas de tradução e li o final de novo e comecei a chorar. Podia ser exaustão, alívio, e certamente havia muito disso, mas era também a única coisa a ser feita diante da força daquela história.
6.
Essa foi a tradução mais difícil que já fiz por muitas razões. Para começar, o livro é imenso (648 páginas na edição brasileira). Há uma infinitude de termos botânicos extremamente específicos e centenas de nomes populares de plantas que às vezes sequer existem em português porque, bem, são plantas nativas dos Estados Unidos. A isso soma-se a especificidade do universo de cada personagem: termos dos primórdios da computação, da aeronáutica, máquinas de silvicultura, instrumentos e táticas de guerrilha na floresta, e tudo isso salpicado de referências literárias, bíblicas, budistas.
O texto é fluido, mas aqui e ali há zonas cifradas, nebulosas, e a linguagem tem seus momentos barrocos. É um livro sofisticado, mas, como eu disse, com histórias bonitas de transformações, então a leitura prende. Difícil não criar uma empatia enorme por todos os nove personagens.
7.
A trama das árvores será nosso livro de outubro do Clube Nevoeiro. Vai ser sensacional ler coletivamente esse romance. Se você quiser conferir o resto da programação, role até o final. Agora vou deixar vocês com um trecho do livro.
Digamos que o planeta nasceu à meia-noite e que roda por um dia.
Primeiro, não há nada. Duas horas se perdem com lava e meteoros. A vida só aparece às três ou quatro da manhã. Mesmo a essa altura, são apenas os pedaços mais rudimentares de autorreplicação. Do amanhecer ao final da manhã — um trilhão de anos de ramificações —, tudo o que existe são células simples e singelas.
Então, há tudo. Não muito depois do meio-dia, algo turbulento acontece. Um tipo de célula simples escraviza algumas outras. Os núcleos ganham membranas. As células desenvolvem organelas. O que antes era apenas um lugar com um único acampamento agora se torna uma cidade.
Já passaram dois terços do dia quando os animais e as plantas se separam. E a vida ainda é unicelular. O dia cai antes que a vida complexa tome conta. Todos os grandes seres vivos chegam tarde, depois que o céu escurece. As águas-vivas e as minhocas vêm às nove da noite. Na virada da hora, a grande sacada acontece — espinhas dorsais, cartilagem, uma explosão de formas corporais. De um instante a outro, inúmeros novos ramos e troncos se abrem e enchem a copa.
As plantas chegam à Terra um pouco antes das dez. Depois, os insetos, que instantaneamente começam a voar. Momentos mais tarde, tetrápodes rastejam a partir da lama das marés, carregando na pele e nas entranhas mundos inteiros de criaturas primitivas. Às onze horas, os dinossauros já fracassaram miseravelmente, deixando os mamíferos e as aves no comando por uma hora.
Em algum ponto dos últimos sessenta minutos, no alto do dossel filogenético, a vida se torna consciente. Criaturas começam a especular. Animais começam a ensinar seus filhos sobre o passado e o futuro. Animais aprendem a realizar rituais.
O homem anatomicamente moderno aparece quatro segundos antes da meia-noite. As primeiras pinturas rupestres surgem três segundos depois. E, um milésimo de um mover do ponteiro dos minutos, a vida resolve o mistério do DNA e começa a mapear a árvore da vida.
Até a meia-noite, a maior parte do globo foi convertida em fileiras de cultivo para o cuidado e a alimentação de uma única espécie. E é aí que a árvore da vida volta a se tornar outra coisa. É aí que o tronco gigante começa a balançar.
Se você gosta do meu trabalho, considere se tornar um assinante pago. Colaboradores têm acesso a um encontro mensal no Zoom. Assinantes pagos também recebem as edições exclusivas do Caderno Amarelo, que falam sobre processo criativo.
22 DE MAIO, bate-papo com Juliana Leite – autora de Entre as mãos (Prêmio Sesc de Literatura) e Humanos exemplares.
24 DE JUNHO, clube de leitura sobre A gosma rosa, Fernanda Trías – Um livro apocalíptico com sotaque uruguaio.
16 de JULHO, bate-papo com Gaía Passarelli – escritora, repórter e um dos grandes nomes do Substack no Brasil.
13 DE AGOSTO, clube de leitura sobre Austerlitz, W.G. Sebald – como é que eu ia deixar esse autor tão absurdamente incrível de fora?
SETEMBRO, bate-papo com Murilo Hauser – Murilo escreveu o roteiro de Ainda estou aqui, a sensação brasileira premiada com o Oscar, e também adaptou A vida invisível para as telas (Prêmio Un Certain Regard em Cannes).
14 DE OUTUBRO, clube de leitura sobre A trama das árvores, Richard Powers – tijolaço sobre vida, árvores, planeta em perigo. Um livro que não sai mais da cabeça de quem lê.
NOVEMBRO, bate-papo com Noemi Jaffe – autora de muitas obras (a última é o excelente Lili – novela de um luto), professora de escrita criativa e dona de um dos Substacks mais inventivos do Brasil.
DEZEMBRO – livro brasileiro que será publicado em agosto e que foi uma das minhas melhores leituras do ano.





Oi, Carol, li “Overstory” quando saiu nos EUA e definitivamente foi um livro que mudou como eu penso a natureza. Fiquei embasbacada, maravilhada, pela forma que a flora (nome da minha neta de 20 anos ❤️) é toda ligada e se comunica de formas tão lindas e delicadas e companheiras. Eu moro no mato - Serra da Mantiqueira - e nunca mais olhei essa extravagância verde à minha volta da mesma forma. E conheço bem as sequoias vermelhas, tenho um filho e netinhos que moram em Humboldt e todos os anos vou visitar. Agora eles vão mudar prá Seattle e já estou com saudades dessas árvores maravilhosas. O livro é ao meu ver uma obra prima, acho o Richard Powers um escritor incrível ( as entrevistas dele são fascinantes). Estou com o mais novo livro dele aqui na minha pilha e estou adiando o prazer um pouquinho…Parabéns pela tradução, deve ter sido um trabalho hercúleo. Um abraço, Clarissa.
Fiquei curiosa: como você resolveu a tradução dos nomes populares das árvores que não existem no Brasil? Porque, em geral, pelo nome científico, a gente acha o nome popular correspondente na língua desejada, né?